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Diário de bordo - 'Expedição Rio das Velhas, te quero vivo'

Por Redação , 29/05/2017 às 09:34
atualizado em: 07/06/2017 às 10:52

Texto:

Foto: Wander de Freitas/Itatiaia
Wander de Freitas/Itatiaia

Repórter João Felipe Lolli segue os passos da expedição

Por João Felipe Lolli

04/06/2017

O encerramento deste diário é rápido e rasteiro. Cento e trinta e dois quilômetros percorridos, oito cidades visitadas em oito dias de expedição, e vimos um rio que nasce limpo e bonito em Ouro Preto se contaminar com lixo e esgoto já 40 quilômetros distante da nascente. Das cidades que percorremos, Itabirito tem, de longe, a melhor realidade. Setenta por cento do esgoto tratado, segundo a prefeitura, além de outras medidas ambientais e de saneamento que garantem, se não a despoluição do rio, pelo menos que ele não receba tanto esgoto. Também em Itabirito nascem os ribeirões do Peixe e Mata Porcos, de águas limpas e que desaguam no Velhas. Raposos, Rio Acima e Sabará têm as piores situações, com 100% do esgoto lançado no rio. Nova Lima trata apenas 35% e Santa Luzia cerca de 60%.

O ato de encerramento da expedição, na Praça da Liberdade, me mostra como uma realidade tão próxima não é percebida por muitos. Diversas pessoas, que caminhavam e passeavam na praça, sequer sabiam de onde vem a água que abastece Belo Horizonte. Menos ainda que o rio está pedindo socorro. Isso mostra o quanto é importante iniciativas como esta expedição, além de valorizar também o trabalho que fazemos, enquanto jornalistas, de informar e tornar pública esta realidade.

No dia do meio ambiente, 5 de junho, a Copasa reúne autoridades do estado, prefeitos e representantes das cidades por onde passa o Velhas para assinatura de uma carta de compromisso, prometendo ações que preservem o rio. Registramos o evento e colocamos tudo no ar, mas eu, particularmente, senti pouca efetividade nas medidas anunciadas, já que não há previsão de valores, prazos e obras a serem realizadas. A Copasa promete investir até R$ 400 milhões, e o Comitê da Bacia do Rio das Velhas outros R$ 50 milhões. “Saneamento tem porta de entrada para os investimentos, mas não tem saída, não pode parar”, me disse uma ambientalista integrante da expedição. Estaremos de olho!

Em tempo, obrigado a todos que acompanharam essa experiência diferente, desafio que tive de registrar textos, vídeos e fotos aqui no site da Itatiaia. Meu agradecimento especial a toda equipe, sem citar nomes, porque jornalismo dificilmente se faz sozinho. Wander de Freitas, companheiro de viagem, valeu por tudo! E como dizem os expedicionários, viva o Rio das Velhas!

03/06/2017

A passagem da expedição por Sabará é muito bonita. A cidade, histórica, traz belezas maravilhosas, que deveriam ser completadas por um rio igualmente belo, mas que chega aqui bastante castigado. São dois os problemas: a vasão d’água menor, que faz o rio poder ser atravessado a pé, com água no meio das canelas. Isso só não acontece por causa do segundo problema, que não é novidade. Poluição. Sabará é a quarta cidade onde 100% do esgoto é jogado sem tratamento no Rio das Velhas e também no Ribeirão Sabará. Aqui a passagem dos expedicionários teve a maior mobilização até agora, com moradores, estudantes, autoridades e ribeirinhos reunidos no ponto de encontro do Ribeirão Sabará com o Velhas. Projetos, discursos e soluções futuras são prometidos aos quatro ventos pelos microfones, enquanto o rio, fraco e sujo, observa tudo sem reagir, sem mostrar muita esperança.

E é curioso, ainda, que, numa cidade por onde passam dois leitos d’água, o abastecimento seja deficitário. Moradores da comunidade de Maquiné, distrito de Sabará próximo a Ravena, me procuraram para pedir socorro. Segundo eles, os 600 moradores estão, há mais de 20 anos, morando lá sem água e esgoto encanados. Dona Jeneci, mãe de seis e avó de quatro, isso tudo aos 38 anos, relata que ela e os filhos tiveram uma série de doenças ligadas à falta de saneamento básico, situação que só melhorou com a instalação recente de fossas sépticas. A água que eles consomem é retirada do Ribeirão Vermelho, afluente do Velhas, e é usada sem nenhum tratamento. A atual administração de Sabará se defende, dizendo que ocupações desordenadas dificultam a chegada dos serviços públicos, que estamos em crise, que há falta de recursos, etc. Argumentos verídicos, mas que não justificam essa situação.

Dos muitos ribeirinhos com quem conversei, a maioria pescando na beira do rio, Otto me chamou a atenção. Ele pescava num dos trechos mais poluídos do Velhas dentro de Sabará, e insistia em dizer que as águas não estavam tão ruins. Peixe mesmo, como em outros lugares, não tinha, mas a esperança de uma solução, essa não falha. “Será que volta a ter peixe aqui, seu Otto?”, pergunto. “Olha, espero poder ver sim, como tinha uns 30 anos atrás. Mas se eu não puder, que pelo menos meus filhos tenham essa experiência daqui uns anos. Sonhar não paga, né?!”

Não, seu Otto, sonhar não paga. Mas água e esgoto são caros em Sabará. Um dos moradores da cidade me procura para mostrar uma conta. R$353,73 é o valor do boleto, datado de maio deste ano. Deste total, R$180,99 tem como referência “Abastecimento de água”, e outros R$90,58 como “Esgoto Dinâmico com Coleta – EDC”. Mas o esgoto não vai todo pro Velhas, eu me pergunto. Vai sim, segundo a própria prefeitura. Vamos então saber da Copasa, responsável pela água e esgoto de Sabará, como explicar isso. Eis a resposta: é cobrada uma taxa de 50% (neste caso, R$90,58) do valor cobrado pela água (neste caso, R$180,99) para o recolhimento de esgoto. E ainda tem mais. Quando as estações de tratamento da Copasa funcionarem em Sabará, o valor da taxa sobe de 50 para 90%.

02/06/2017

Depois do soco no estômago narrado ontem, quando passamos por Rio Acima, nossa chegada em Raposos mostra uma realidade parecida. Também aqui o tratamento de esgoto é ineficiente, e 100% dele é lançado sem tratamento direto no Rio das Velhas, segundo a própria prefeitura, que afirma ter quase finalizada uma Estação de Tratamento de Esgoto, sem prazo para ficar pronta. Enquanto isso, a cidade de 15 mil habitantes, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, recebe um rio já poluído e lança mais sujeira direto na água. Foi triste, viu, ouvir as histórias do seu Walace, de 88 anos, incrivelmente lúcido e ativo, narrando suas aventuras no rio de sete décadas atrás, quando pescava no quintal de casa o peixe que a mãe preparava para o almoço. “Hoje, nem uma piabinha tem no rio, muito triste”, disse ele, com a voz embargada.

Mas também em Raposos renova-se a esperança. “Nova aurora a cada dia”, cantou Milton Nascimento. E é verdade. Temos que manter acesa a chama da esperança. E aqui em Raposos ela tem nome: Ribeirão da Prata. Ele nasce na Serra do Gandarela, e chega à zona rural de Raposos completamente limpo. Fez-se um parque, minimamente preservado e organizado, ao seu redor, onde as pessoas andam, nadam e pescam em águas completamente limpas. O problema está quando o Prata se encontra com o já poluído Velhas. Aí vai tudo, literalmente, por água abaixo. Outras cidades apresentam também esta mesma realidade, com ribeirões e córregos menores, de águas limpas, que desaguam no poluído Velhas.

Infelizmente, a situação tende a piorar em Sabará e Santa Luzia, cidades finais da expedição, com a influência negativa do esgoto trazido pelo Onça e pelo Arrudas, carregados do esgoto de Belo Horizonte.

Pra terminar com esperança e em alto astral, vamos de novo com Milton Nascimento, para levantar o astral depois dessas tristes constatações, num trecho que tem tudo a ver com a expedição. “Há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo, verdes, planta e sentimento. Folhas, coração, juventude e fé”.

01/06/2017

A cidade de Rio Acima, terceira que a gente visita nesta expedição, me dá um soco em cheio na boca do estômago, daqueles que te deixam sem ar e sem norte. Um dos moradores aqui da cidade brincou chamando de “capetalismo”, com E mesmo. E não dá pra discordar, pela triste realidade que vi aqui em Rio Acima e que não vai deixar as minhas lembranças. Primeiro, uma linda cachoeira, com queda d’água e piscina natural, distante 500 metros do centro da cidade. Isso mesmo, 500 METROS, mas que não é frequentada por ninguém devido à poluição. Além disso, visitamos ainda uma área abandonada de mineração, com uma pilha de rejeitos sólidos, tóxicos, e ainda uma barragem de rejeitos líquidos, também tóxica. Isso distante menos de dois quilômetros do leito do Rio das Velhas, num risco iminente de contaminação. E isso não é novidade. Tem seis anos que a área está abandonada, quando a empresa Mundo Mineração decretou falência e abandonou todo o complexo. Uma situação simplesmente surreal, onde o poder público também não está presente.

Pescar e nadar já não é mais possível, tanto aqui em Rio Acima, quanto em Nova Lima e também Raposos, a quinta cidade percorrida pela expedição. Ao som de Sobradinho, imortal canção de Sá e Guarabira, a chamada equipe Terra, com educadores e biólogos do Projeto Manuelzão, faz sucesso por onde passa, especialmente entre as crianças, sempre muito interessadas em tudo que é mostrado. A esperança da equipe da expedição também compartilhada por este que vos escreve, é de que no futuro a situação do Velhas possa melhorar. E que este futuro seja breve!

Pra finalizar, alguns números que chocam. Itabirito – 30% do esgoto jogado diretamente no Velhas. Rio Acima – mais de 95% do esgoto lançado. Nova Lima – 80% do esgoto lançado. Todos estes são dados fornecidos pelas prefeituras de cada cidade. Isso em junho de 2017. Assusta ou não?

31/05/2017

A vida começou na água e a água voltará a ter vida. A frase, estampada no ônibus do Projeto Manuelzão, martela na minha cabeça neste quarto dia de expedição. Nós, mineiros, especialmente os que nascemos no interior, temos características que nos destacam e já foram cantadas em verso e prosa por aí. Somos desconfiados, hospitaleiros e bons de gastronomia. Incontáveis foram os cafés que tomamos nas casas humildes de ribeirinhos ao longo do Rio das Velhas. Juliana, mãe de quatro filhos (Actor, Abner, Alef e Alessandra), tem 33 anos e conta que o avô lembrava histórias de barcos navegando no Velhas. Realidade de décadas e décadas atrás, quando a vasão do rio era maior. Juliana completa dizendo que hoje não deixa os filhos sequer nadarem no rio, segundo ela, já muito poluído. Essas e outras histórias ouvimos aqui em Rio Acima, terceira cidade que a expedição percorre. À medida em que o rio se aproxima da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a qualidade da água parece, a olho nu, só piorar.

Outro desafio que encontramos acompanhando esta expedição é muito peculiar ao jornalismo e à cobertura para o rádio, em especial. Entramos nas casas, somos sempre bem recebidos, ouvimos histórias fantásticas, mas, na hora de gravar, a timidez e o medo não sei de que fazem muitos personagens fantásticos ficarem apenas na minha memória. Para cada entrevista com ribeirinho que vai ao ar, são pelo menos outras dez tentativas de entrevista que não acontecem por esse receio, também característico do povo do interior.

Internet e sinal de celular são outros pontos curiosos dos bastidores da nossa cobertura. Eu tenho dois chips de duas operadoras diferentes, e o Wander de Freitas, operador de áudio que me acompanha, tem de uma terceira operadora. Ainda assim, pelos rincões que percorremos, falta sinal de qualidade. Tanto para transmitir nossas matérias, quanto para mandar, pelo WhatsApp mesmo, fotos e vídeos aqui para o site da Itatiaia, contamos com a boa vontade de moradores e comerciantes, sempre solícitos. Agora que estamos em Rio Acima, já bem perto da Região Metropolitana de BH, o sinal fica melhor, mas não posso deixar de agradecer aqui àqueles que, seja com um café, uma entrevista que não foi gravada, ou uma salvadora senha do wi-fi, enriqueceram nossos registros na Expedição Rio das Velhas, te quero vivo!

30/05/2017

O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. Tomando emprestada e adaptando a famosa frase de Jean-Jacques Rousseau, o Rio das Velhas nasce limpo, mas a sociedade o corrompe. Os primeiros 40 quilômetros do Rio das Velhas, da nascente em Ouro Preto até Acuruí, em Itabirito, são marcados por paisagens belas, água limpa, fauna e flora preservadas. Os seis canoístas que percorreram o leito fazem esta análise, mas também lamentam que já nos arredores da comunidade de Acuruí a exploração de areia as margens do rio não tem respeitado o limite de 30 metros de proteção da margem, previstos em lei. Outro ponto ruim neste primeiro trecho é o assoreamento do rio. “Muita areia, muito entulho tem assoreado o rio, deixando a navegação mais difícil”, analisa Ronald Guerra, um dos canoístas. Aliás, a equipe que vai navegando pelo Velhas sofreu uma baixa. Quanto mais raso, mais esforço os canoístas tem que fazer para remar, e o ombro direito de Leandro Durães não resistiu. Ele, que é engenheiro ambiental e voluntário do projeto Manuelzão, teve de abandonar a expedição após o primeiro trecho. “Já entrei no rio e percebi que a remada seria com muito esforço. Tenho cinco expedições neste mesmo modelo, mas em outros rios, como experiência, mas não teve jeito. Já neste primeiro trecho foram muitas corredeiras, onde o esforço é maior, aí preferi sair para não forçar o tendão do ombro. Tá tudo bem, faz parte. Vou seguir acompanhando e torcendo pros amigos”, disse Durães. A equipe agora conta com cinco canoístas, três mais experientes, e dois “novatos”.

Ribeirinhos relatam que antes o rio era mais caudaloso, com mais vasão de água, e também mais fundo, o que poderia facilitar a navegação. Dona Izaíra, de 66 anos, 40 deles vividos em Acuruí, constata: “Ah, meu filho, o rio era muito melhor antigamente. Tinha mais peixe e era mais fundo, não é mesmo Liziane?!”, diz a senhora, se dirigindo à filha mais nova. São nove filhos no total, todos criados às margem do Velhas. Acuruí tem 425 habitantes, segundo a associação de moradores. Há menos de um ano, a prefeitura de Itabirito inaugurou a estação de tratamento de água do distrito de Acuruí, mas tratamento de esgoto ainda não existe. Antônio Generoso, secretário de Meio Ambiente de Itabirito, afirma que 70% do esgoto doméstico da cidade é tratado. “Até agosto vamos concluir a ampliação da estação de tratamento para 90%”, anuncia o secretário. Mas os ambientalistas que compõe a expedição têm uma expectativa diferente. “Infelizmente, nem é expectativa, é realidade mesmo. Da nascente até Acuruí a água é límpida, em muitos pontos está praticamente pronta para o consumo. Chegando em Acuruí a qualidade começa a cair e até Itabirito a presença do esgoto é perceptível pela cor e pelo cheiro da água”, finaliza Leandro Durães.

29/05/2017

Cinquenta e uma cidades mineiras. Oitocentos quilômetros de extensão. Cerca de 4,5 milhões de pessoas com abastecimento de água. Estes são alguns números do Rio Guaicuí, que em tupi-guarani significa Velhas Tribos. Este é, digamos, o nome completo do Rio das Velhas, que parece nascer de cubos de gelo, e não das rochas de Ouro Preto, de tão gelado que é. Esta cidade, inclusive, me é muito especial. Morei por sete anos entre Ouro Preto e Mariana, enquanto cursava jornalismo e, depois, recém-formado. Acompanhar os oito dias desta expedição é uma oportunidade de conhecer mais.

O técnico de áudio Wander de Freitas e eu acompanharemos ambientalistas, educadores, engenheiros ambientais e voluntários, que remam pelas águas, marcham pelo leito e desbravam, em jipes e motos, os meandros deste que é o principal afluente mineiro do Rio São Francisco. O diagnóstico prévio parece ser consenso: as condições do Velhas melhoraram muito desde a primeira expedição, em 2003, mas ainda estão longe do ideal. Quanto mais próximo de Belo Horizonte, mais esgoto sem tratamento é depositado no rio, sem falar nas atividades industriais que muitas vezes trazem assoreamento e mais poluição.

Nosso desafio é acompanhar esta expedição e registrar, nos mais diversos ângulos, os desafios de se percorrer 150 quilômetros de rio, daqui de Ouro Preto, até Santa Luzia. Te convido a seguir junto com a gente nesta viagem, pelas ondas da Itatiaia e também neste diário de viagem. Como sempre diz o Eustáquio Ramos, vamos juntos?

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